Pratique a gentileza

No fim do século 19, uma mulher se faz passar por homem para conseguir trabalho em um hotel. Outra, também para sobreviver num mundo dominado por eles, incorpora as roupas, a postura e a profissão do falecido marido, tornando-se um pintor de paredes. Disfarçam-se sob o vestir e também sob o agir, estereotipadamente masculinos.

Na primeira década do século 21, o número de mulheres em cargos executivos das 500 maiores empresas do país duplicou. No guarda-roupa de muitas delas, vestidos em lugar de terninhos. Na mesa de reunião, firmeza, sim, mas com delicadeza. Não há mais que se disfarçar o ser mulher. Há que simplesmente ser. E ganhar com isso.

O mordomo/garçom Albert Nobbs (vivido por Glenn Close em filme de mesmo nome) e seu amigo pintor (Janet McTeer) valeram às atrizes merecidíssimas indicações ao Oscar deste ano por seus papéis no filme de Rodrigo García. Na vida real, executivas passaram décadas tentando se desvencilhar de arquétipos masculinos impostos a elas pelas organizações. Até que finalmente conseguiram. “A mulher precisou se masculinizar para conseguir seu espaço no mundo corporativo. Mas esse passo a gente já deu”, diz a executiva Camila Valverde, 37 anos. Diretora de sustentabilidade do Wal-Mart Brasil, é uma mulher doce e gentil, que gosta de se sentir feminina e faz o tipo família. Coisa de mulherzinha? Sim. De mulherzinha poderosa. Desse jeitinho aí — em nada parecido com a típica imagem da chefe-general —, Camila começou como estagiária e hoje ocupa um dos cargos de maior responsabilidade na empresa. “Nunca dei espaço para preconceito. E sempre entreguei resultados.”
No fim do século 19, uma mulher se faz passar por homem para conseguir trabalho em um hotel. Esse é a história do mordomo Albert Nobbs vivido por Glenn Close em filme


Pois que venham os resultados, atrelados a mais graça, leveza e cortesia. Esqueça as amarras impostas pelo gênero. E, principalmente, os protótipos machistas de poder. Nunca foi tão permitido e produtivo ser uma lady. “Falar palavrão, bater na mesa, gritar ou humilhar são atitudes completamente fora do contexto do mercado, tanto para eles como para elas”, diz a consultora de etiqueta corporativa Renata Mello. Hoje, o que conta pontos, e muitos, é exatamente o contrário. “O ambiente organizacional se baseia em relações interpessoais. Se você estabelece vínculos de respeito, consideração e parceria, consegue um retorno muito melhor.”

É simples assim: um pedido feito educadamente tem muito mais chances de ser prontamente atendido. Outro, rispidamente imposto, corre um grande risco de ir direto para o fim da fila. De uma maneira mais ampla, esse raciocínio vai pautando toda a sua trajetória na companhia. Ser sempre muito bem-educada com todos (todos mesmo), respeitar as diferenças e evitar julgar são sinônimos de boas maneiras e, consequentemente, de um ambiente mais positivo, mais agradável e muito mais eficiente. Os indispensáveis bom-dia, por favor e obrigada conquistam simpatia. O olho no olho mostra que você se importa com quem está falando e com o que está ouvindo. O tom de voz, mais para baixo do que para alto, indica respeito. O interesse pelo outro mostra consideração. E tudo isso junto passa uma boa imagem não só de você mesma, mas da sua empresa.

Alguns deslizes, no entanto, podem botar tudo a perder, alerta Renata Mello. Nada de confundir feminilidade com sensualidade. Nem com uma postura infantilizada e melosa. Do mesmo modo, nunca esqueça que há, sim, limites entre o universo pessoal e o profissional. É legal ser simpática e conversar sobre o mundo lá fora, mas sem exageros. Reserve os apelidos carinhosos para a sua família e nunca, jamais, nem no banheiro e de luz apagada, como diria Danuza Leão, revele intimidades ou perca o controle emocional. Lady que é lady mantém a classe. Sempre.

P.S. Claro que nem toda mulher faz o tipo doce e angelical, nem todo homem faz o tipo ríspido e durão. Que venha a diversidade, com todas as suas singularidades. Mas sempre com muito respeito, gentileza e educação.

Texto de VoceS.A