Sim, eu fujo

A vida é muito difícil. Até aí não é surpresa para ninguém. Mas todo mundo tem um amigo, um parente, um conhecido, que vive reclamando de como a vida é difícil. São pessoas que se apresentam como se fossem privilegiadas por um tipo de sofrimento que só elas têm. Seu emprego é pior do que o dos outros, seus filhos dão mais trabalho, sua conta bancária entra mais no vermelho do que a de todo mundo.


É gente que parece estar sempre num tipo de gincana para provar que detém o privilégio do sofrimento. Nada, absolutamente nada que você relate será páreo para as dificuldades dela. É um discurso de vítima ao qual a pessoa é tão, mas tão apegada, que sequer percebe o hábito – eu poderia dizer talvez o vício – de se atribuir problemas maiores, mais complexos, e sobretudo mais intransponíveis do que nós, os mortais, que vivemos cá com nossos “probleminhas insignificantes”, de menor valor.

Os psicanalistas (mas antes deles Nietzsche), chamam isso de ressentimento. Eu chamo de um caldinho que fica cozinhando em fogo brando e serve para tudo: explica o fracasso, explica a dor, explica os erros, as más escolhas. Mas ressentimento só fornece explicações se, e somente se, o ressentido se autorizar a considerar as suas mazelas piores, muito piores que a dos outros. De um trauma de infância a um ex-marido safado, vale qualquer pretexto para manter o caldinho ali, em banho-maria, cumprindo sua função de garantir o pior sofrimento do mundo.


Ao lado destas pessoas, não é possível ter um ombro amigo, porque por mais que pretenda fazer algum tipo de relato de como as coisas estão complicadas para o seu lado, sempre haverá algo na vida dela que supera, em muito, tudo isso pelo que você está passando, não importa o que seja.

Em tempos de redes sociais, está muito difícil cultivar amizades, manter amigos próximos e queridos, conviver com eles de verdade. Ser seletivo tornou-se não só um estilo de vida, mas uma necessidade. Impossível dar conta de tantas demandas, então a primeira amiga da lista a ser eliminada é essa cuja vida dói mais do que a dos outros.

Há embutido neste discurso a ideia de que a vida dela vale mais do que a sua, de que os problemas dela são mais importantes do que os seus, de que o discurso dela tem mais valor, tanto que a você caberá somente ouvir.

Então eu decidi – não foi de hoje, claro – deixar falando sozinha quem quer falar sozinha. Fugi, eliminei, me escondi de gente para quem a vida é muito difícil. Viver é um perigo, como canta Celso Fonseca, mas é um perigo para todos nós. Temos medos, angústias, desafios, apreensões. Somos feitos da mesma matéria. Alguns de nós são mais corajosos, outros menos. Mas estamos todos, com maior ou menor sucesso, enfrentando as dificuldades da vida, que é, aliás, a própria vida. O mínimo que cada um pode fazer é levar a sua própria vida sem sobrecarregar a de ninguém.

Por Carla Rodrigues, UOL




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